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Bolsonarismo e o algoritmo da “persuasão”

Você realmente acredita que a sua última escolha, seja o produto no seu carrinho de compras ou o voto na urna, foi 100% sua? E se a sua decisão tiver sido sorrateiramente desenhada, testada e implantada na sua mente semanas antes de você sequer pensar sobre ela?

Existe uma engrenagem invisível por trás das telas operando neste exato segundo. Ela não vende apenas mercadorias. Vende ideologias, alimenta o ódio contra oponentes e corrói conquistas sociais em nome da manutenção do poder.

Ao longo desse artigo, vou apresentar alguns documentários, livros e notícias que uni para entendermos que o fenômeno do bolsonarismo não é um movimento orgânico acidental. É um estudo de caso de marketing de influência levado ao extremo. Uma engrenagem impulsionada por plataformas sem regulamentação, alimentada por desinformação em massa e sustentada por uma ilusão poderosa que cria uma falsa sensação de pertencimento totalmente orquestrada por algoritmos viciados.

Ao assistir o documentário Privacidade Hackeada, a ficha finalmente caiu sobre o verdadeiro custo da Big Data. Todas as vezes que você clica em “Aceito os Termos e Condições” sem ler, você não está criando uma conta gratuita. Você está entregando a chave da sua mente. Compreender o comportamento de consumo foi a base para compreender como o bolsonarismo e o antipetismo foram meticulosamente erguidos. Eles não nasceram da política tradicional, mas do roubo sistemático de dados, do comércio da nossa privacidade e do leilão do nosso comportamento social.

A ilusão da Neutralidade Digital

Privacidade Hackeada (The Great Hack, 2019)
Direção: Karim Amer e Jehane Noujaim
Distribuição: Netflix
Duração: 113 minutos

Sinopse: O documentário expõe o escândalo envolvendo a empresa de consultoria política Cambridge Analytica e o Facebook, revelando como dados pessoais de dezenas de milhões de usuários foram coletados sem consentimento explícito e utilizados para manipular eleições e referendos ao redor do mundo.

A narrativa se constrói acompanhando três personagens principais: David Carrol, professor universitário nova-iorquino, que entra com uma ação judicial no Reino Unido para tentar exigir que a Cambridge Analytica devolva seus dados pessoais e explique quais informações detém sobre ele. Brittany Kaiser, ex-diretora de desenvolvimento de negócios da Cambridge Analytica que revelou os bastidores de como a empresa operava. E Carole Cadwalladr, jornalista investigativa do jornal britânico The Guardian, cujas reportagens foram fundamentais para trazer o esquema à tona.

Através de testes de personalidade aparentemente inofensivos no Facebook, a Cambridge Analytica coletava não apenas os dados de quem respondia o teste, mas também de toda a sua rede de amigos, criando assim Perfis Psicológicos. Com base nos “curtir” e comportamentos online, a empresa mapeava a personalidade dos usuários.

O foco principal das campanhas não era quem já tinha posição política definida, mas sim a parcela indecisa da população. Essas pessoas eram bombardeadas com conteúdos altamente direcionados (notícias falsas, anúncios de medo, teorias da conspiração) para alterar seu comportamento e intenção de voto. O documentário detalha como a metodologia da Cambridge Analytica foi empregada em campanhas decisivas, como a vitória do Brexit no Reino Unido, as eleições presidenciais dos EUA em 2016 (campanha de Donald Trump) e em diversos países em desenvolvimento (como Trinidad e Tobago).

Comunicações em Tempos de Crise
Autora: Helena Martins (jornalista, professora e pesquisadora de Economia Política da Comunicação e ex-integrante do coletivo Intervozes)
Editora: Expressão Popular / Fundação Rosa Luxemburgo (Coleção Emergências)
Ano: 2020 | Páginas: 243

Nesta obra, Helena Martins mostra que a internet e os meios de comunicação não são neutros. Eles são o motor do capitalismo atual e estão no centro das grandes crises modernas, conectando o avanço da tecnologia ao crescimento de discursos autoritários e radicais no Brasil e no mundo.

A autora recupera o processo histórico em que as tecnologias de informação e comunicação se converteram na base técnica de reestruturação do capital. A aceleração das redes viabilizou a financeirização, a precarização do trabalho e a criação de nichos de mercado hipersegmentados. Martins examina o cenário brasileiro a partir da privatização do sistema Telebras e da abertura para grandes transnacionais. A autora aponta como os governos progressistas perderam a oportunidade histórica de promover uma reforma democratizante na mídia tradicional, mantendo a concentração histórica de poder nas mãos de poucos oligopólios familiares.

O livro detalha a transição do poder dos velhos conglomerados de mídia nacional (como rádio e TV) para os monopólios das grandes corporações de tecnologia (como Google, Meta e Amazon). O modelo de negócios focado no extrativismo de dados e no engajamento por meio de algoritmos incentiva a polarização e a circulação de desinformação. Essa arquitetura das redes sociais e a falta de regulação favoreceram ações coordenadas de desinformação, manipulando o debate público e influenciando processos eleitorais e crises institucionais.

O Motor do Engajamento Extremo

Sancionado no Brasil em 2014 (Lei nº 12.965), o Marco Civil da Internet é considerado a “Constituição da Internet” no país. Ele estabeleceu três pilares fundamentais. A neutralidade de rede, em que as operadoras não podem deixar sua internet mais rápida ou mais lenta dependendo do conteúdo que você acessa. A Privacidade e Proteção de Dados que garante que suas informações pessoais só podem ser guardadas ou usadas com sua autorização prévia. E a liberdade de expressão, as plataformas (como redes sociais) só são responsabilizadas civilmente por um post de usuário se descumprirem uma ordem judicial para retirá-lo do ar.

Desenhado para proteger o cidadão, não previu a força dos algoritmos nem a proliferação de redes industriais de desinformação e manipulação de métricas, em uma cultura com avanço acelerado da tecnologia. As conhecidas “fazendas de cliques” são exemplos de estruturas compostas por centenas de celulares conectados, geridos por automações focadas em simular comportamento humano. Os algoritmos são programados para entregar conteúdos que têm mais engajamento e retenção..

Quando um conteúdo surge com milhares de visualizações e comentários favoráveis, a mente humana tende a achar que aquilo é o consenso geral. Usadas tanto para inflar a relevância de marcas e influenciadores quanto para catapultar pautas políticas, cancelar opositores e disseminar desinformação, os conteúdos criam uma falsa sensação de apoio popular a determinadas ideias. Ao deter o Facebook, Instagram e WhatsApp, a Meta controla quase a totalidade da comunicação pessoal e do consumo de informação de bilhões de pessoas diariamente.

Ao centralizar esses três canais, a Meta tem acesso a um ecossistema completo de dados:
1. O que você fala e deseja (grupos, interações e mensagens).
2. O que você consome visualmente (tempo de tela em fotos e Reels).
3. Seus relacionamentos (sua rede de contatos).

Com essa base, a empresa não apenas sugere produtos para você comprar, mas molda o debate público, decidindo quem tem alcance e quem fica invisível através dos algoritmos de distribuição de conteúdo.

Requiem for the American Dream (2015)
Direção e Produção: Peter Hutchison, Kelly Nyks e Jared P. Scott
Entrevistado Principal: Noam Chomsky
Duração: 73 minutos

Gravado ao longo de quatro anos em entrevistas com Noam Chomsky, o documentário analisa a dinâmica de concentração de riqueza e poder nos Estados Unidos. Chomsky argumenta que o chamado “Sonho Americano” (American Dream), a promessa de mobilidade social ascendente baseada na classe trabalhadora, foi deliberadamente desmantelado ao longo do último meio século. Essa transformação resultou em um círculo vicioso no qual a concentração de riqueza gera concentração de poder político, o que, por sua vez, produz leis que aumentam ainda mais a concentração de riqueza.

Os 10 Princípios da Concentração de Riqueza e Poder

1. Reduzir a Democracia: Retoma a tensão fundacional dos EUA (citando James Madison), na qual as elites desenharam instituições para conter os excessos da participação popular e proteger “a minoria dos opulentos contra a maioria.
2. Moldar a Ideologia: Quando o povo começou a se organizar nos anos 60 cobrando direitos, as grandes empresas reagiram. Elas investiram para controlar escolas, universidades e jornais, convencendo a sociedade de que “democracia demais” era algo perigoso.
3. Redesenhar a Economia: O foco muda das fábricas para os bancos e para o mercado financeiro. As empresas passam a fechar fábricas locais e levar os empregos para países onde a mão de obra é barata, deixando os trabalhadores sem força para negociar salários.
4. Deslocar o Fardo: Examina as alterações na política tributária. O fardo fiscal que foi sistematicamente retirado das corporações e dos super-ricos e transferido para a classe média e a classe trabalhadora.
5. Atacar a Solidariedade: Explica como programas de bem-estar social, como a Previdência Social e o ensino público, sofrem ataques ideológicos e cortes de verbas. O objetivo é corroer a empatia de classe e a solidariedade social.
6. Controlar os Reguladores: Discute a “captura regulatória”, fenômeno em que as indústrias e bancos passam a controlar as próprias agências governamentais criadas para fiscalizá-los, levando ao desregulamento do mercado financeiro.
7. Controlar as Eleições: Explicar como o dinheiro tomou conta da política. Liberou-se o financiamento milionário de empresas para campanhas eleitorais sob a desculpa de “liberdade de expressão”, fazendo com que os políticos trabalhem para quem paga a conta.
8.Manter a Ralé na linha: Aborda o desmonte sistemático dos sindicatos e do trabalho organizado como forma de suprimir o único contraponto organizado ao poder das corporações.
9. Fabricar consensos e criar consumidores: Explicar como a publicidade e a mídia transformaram o cidadão consciente em um simples consumidor. As pessoas são bombardeadas com propaganda para se preocuparem apenas em comprar coisas que não precisam, ficando anestesiadas para a política.
10. Marginalizar a População: A maioria da população passa a odiar e desconfiar das instituições públicas, tornando-se impotente e marginalizada do processo de tomada de decisão política.

A Engenharia da “Persuasão” (Data & Bots)

Em suma, a disputa pelo debate público nas redes sociais revela uma assimetria profunda quando observamos as recentes denúncias contra a Meta no Brasil. Durante o período eleitoral, a coligação de apoio ao governo Lula, partidos como o PT da Paraíba e mais de mil páginas independentes, incluindo veículos como a Mídia Ninja, canais de educadores e diretórios acadêmicos, registraram bloqueios, restrições de impulsionamento e quedas abruptas de alcance (shadowban). A situação se agravou com a desativação repentina e sem justificativas transparentes de perfis de influenciadores e militantes progressistas, como Tiago Santineli, Chavoso da USP e Jones Manoel. Embora a Meta alegue “falhas técnicas temporárias” e negue qualquer viés ideológico, o volume de irregularidades levou a Justiça Eleitoral a notificar a empresa a prestar esclarecimentos formais sobre seus algoritmos e critérios de moderação.

Esses episódios escancaram a verdadeira dimensão da manipulação digital contemporânea: o poder de decidir quem fala e quem é ouvido está concentrado nas mãos de monopólios privados. Quando plataformas controlam a visibilidade de narrativas políticas sob o pretexto de “termos de uso” genéricos, o processo democrático deixa de ser um debate de ideias e passa a ser moldado por conveniências corporativas e algorítmicas. Compreender essas engrenagens de supressão e alcance não é apenas uma discussão sobre redes sociais, mas uma necessidade urgente para defender a própria soberania do voto e impedir que o futuro das eleições seja silenciosamente desenhado nos bastidores das Big Techs.

Isoka Souza

Olá, eu sou a Isoka, essa pessoa que vos fala neste humilde site da internet, com aparência de blog. Uma simples comunicóloga que entrega um pouco do seu dia a dia como diretora de arte e empreendedora em forma de conteúdo.

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